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Mamíferos da Serra do Faxinal: Diversidade e Conservação no Sul da Mata Atlântica

Entrevista realizada com a bióloga Emanuelle Pasa, uma profissional dedicada à pesquisa e conservação da fauna brasileira. Com uma carreira focada no estudo de mamíferos da Mata Atlântica, Emanuelle tem se destacado por seu trabalho na Serra do Faxinal, uma região de rica biodiversidade localizada nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Quais são as principais espécies de mamíferos encontradas na Serra do Faxinal?

A Serra do Faxinal, localizada dentro do Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul e em duas importantes unidades de conservação – os Parques Nacionais Aparados da Serra e Serra Geral – é um verdadeiro refúgio de biodiversidade. Com um ambiente rico e cheio de vida, a região abriga 43 espécies de mamíferos terrestres (sem contar os morcegos), que desempenham um papel essencial no equilíbrio ecológico local. Entre esses mamíferos, algumas espécies se destacam por sua importância ecológica, seja por ocuparem grandes territórios, por serem símbolos da conservação ou por estarem ameaçadas de extinção. É o caso dos felinos, como o gato-do-mato-pequeno-do-sul (Leopardus guttulus), o gato-maracajá (Leopardus wiedii), o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), a jaguatirica (Leopardus pardalis) e o imponente leão-baio (Puma concolor). Além deles, também merecem destaque o cateto (Dicotyles tajacu), o veado-mão-curta (Mazama nana) e o bugio-ruivo (Alouatta guariba), um dos primatas mais notáveis da região. A Serra do Faxinal é, sem dúvida, um tesouro natural que precisa ser protegido, não só pela sua beleza, mas também pelo seu papel fundamental na preservação da vida selvagem. 

Existe alguma espécie de mamífero endêmica ou ameaçada na região?
Sim, há espécies ameaçadas de extinção na região. Das 43 espécies de mamíferos registradas na Serra do Faxinal, 14 (cerca de 30%) estão em risco, de acordo com uma ou mais listas oficiais de conservação. Essas listas incluem as estaduais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, a nacional (MMA) e a global (IUCN).
Entre os mamíferos ameaçados estão a cuíca-d’água (Chironectes minimus), o veado-mão-curta (Mazama nana), o cateto (Dicotyles tajacu), o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), além de vários felinos, como o gato-do-mato-pequeno-do-sul (Leopardus guttulus), o gato-maracajá (Leopardus wiedii), o gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), a jaguatirica (Leopardus pardalis) e o leão-baio (Puma concolor). Também fazem parte dessa lista o quati (Nasua nasua), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), o bugio-ruivo (Alouatta guariba), o macaco-prego (Sapajus nigritus) e a cutia (Dasyprocta azarae).
Embora não existam espécies de mamíferos endêmicas da região, algumas dependem de ambientes bem preservados, como os da Serra do Faxinal, para sobreviver. É o caso da cuíca-d’água e do veado-mão-curta, que são bons indicadores da qualidade ambiental da área.

Como os mamíferos da Serra do Faxinal se adaptam ao clima e relevo locais?
A Serra do Faxinal, localizada dentro do Bioma Mata Atlântica, abriga uma grande diversidade de paisagens, que variam conforme a altitude. Entre elas, estão a Floresta Ombrófila Densa, a Mata Nebular, a Floresta Ombrófila Mista (Floresta de Araucária) e os Campos de Altitude. Essa diversidade de vegetação, combinada com um clima de extremos de temperatura e umidade e um relevo acidentado, criando um ambiente desafiador, mas ao mesmo tempo favorável para muitas espécies de mamíferos.
Os carnívoros, por exemplo, não estão só adaptados a essas condições, mas também se beneficiam delas. A grande oferta de alimentos, os diferentes tipos de abrigo e a presença de áreas preservadas nos Parques Nacionais permitem a convivência de várias espécies, incluindo os felinos. Além disso, mamíferos como o raro e ameaçado veado-mão-curta (Mazama nana), que depende de florestas densas e de altas altitudes, encontram na Serra do Faxinal um refúgio essencial para sua sobrevivência.
Ambientes mais variados e bem preservados conseguem sustentar um maior número de espécies, já que cada uma encontra o espaço e os recursos de que precisa para viver. Assim, seja em terra ou na água, seja escalando árvores ou caminhando pelo solo, cada mamífero desempenha um papel fundamental na manutenção desse ambiente rico e equilibrado. 

Quais são os principais desafios para a preservação dos mamíferos nessa região?
Os principais desafios para a preservação dos mamíferos na Serra do Faxinal estão relacionados à perda e fragmentação de habitat, à caça, aos atropelamentos de animais silvestres e à desinformação sobre a importância da conservação.
A região abriga uma das áreas mais ricas e preservadas de Mata Atlântica no sul do Brasil, essencial para a sobrevivência de diversas espécies, incluindo algumas ameaçadas de extinção. No entanto, a expansão de infraestruturas, o aumento do fluxo turístico e atividades humanas podem impactar diretamente esses animais. A pavimentação de rodovias, por exemplo, facilita o acesso, mas também aumenta o risco de atropelamentos, perda de conectividade e pode interferir nos deslocamentos naturais da fauna.
Além disso, a caça - tanto para subsistência quanto para o tráfico de animais silvestres - ainda representa uma ameaça significativa. A desinformação sobre a importância ecológica desses animais também pode levar a atitudes prejudiciais, como a perseguição de predadores por medo ou desconhecimento de seu papel no equilíbrio do ecossistema.
Superar esses desafios exige medidas eficazes de conservação, incluindo proteção de habitats, criação de estratégias para reduzir os impactos de rodovias e ações educativas para sensibilizar a população sobre a importância da fauna local. A manutenção das áreas preservadas é fundamental para garantir a coexistência entre o desenvolvimento humano e a biodiversidade da Serra do Faxinal. 
Pensando desta maneira que trabalhamos, por exemplo, no monitoramento de mamíferos, no âmbito do licenciamento ambiental das obras de pavimentação da Rodovia SC290, principal rodovia da Serra do Faxinal, que liga Praia Grande (SC) a Cambará do Sul (RS). Neste trabalho os programas ambientais exigidos na Licença de Instalação da rodovia têm como objetivo avaliar os impactos da pavimentação sobre a fauna local e propor medidas preventivas, corretivas e/ou de mitigação (atenuação dos impactos). Assim como também criamos o Projeto de Conservação Carnívoros dos Cânions que tem por objetivo promover práticas de conservação, principalmente por meio da educação ambiental formal e informal, na região da Serra do Faxinal e em toda a região dos Cânions do sul Brasil. Neste sentido também, as entidades envolvidas no monitoramento de fauna da rodovia SC290 juntamente com a Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade de Santa Catarina (SIE) criaram o Projeto Biodiversidade da Serra do Faxinal e Aparados da Serra, no app INaturalist, com o objetivo de envolver toda a comunidade para contribuir com registros e ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade da região.  E por fim, para quem desejar saber mais sobre todo o programa de gestão ambiental que envolve a pavimentação da rodovia SC290, ter acesso ao projeto, aos dados, fotos, informativos e resultados parciais pode acessar o site https://gestaoambiental.sie.sc.gov.br/

Mamíferos da Serra do Faxinal: Diversidade e Conservação no Sul da Mata AtlânticaLobo-guará (Chrysocyon brachyurus) - Foto: Leandro Malta Borges

Como o turismo ecológico pode impactar a vida selvagem na Serra do Faxinal?
O turismo ecológico pode trazer benefícios ou prejuízos à vida selvagem, dependendo de como é conduzido. Quando não há respeito às regras e legislações ambientais – seja pelo excesso de visitantes e veículos, descarte inadequado de lixo, ruídos excessivos ou até pela alimentação indevida de animais silvestres – os impactos podem ser severos, comprometendo o equilíbrio ecológico da região.
Por outro lado, quando bem planejado e gerido, o turismo ecológico se torna um grande aliado da conservação. Boas práticas, como controle de acesso, educação ambiental e manejo responsável, garantem a preservação dos ecossistemas e ainda potencializam o interesse dos visitantes. Afinal, quanto mais preservado e organizado o destino, maior será sua atratividade, criando um ciclo positivo para a biodiversidade e para a economia local. 

Há registros de grandes mamíferos na região, como onças-pardas e veados?
Sim, há registros de grandes mamíferos na região, incluindo o leão-baio, também conhecido como puma ou onça-parda (Puma concolor), o veado-catingueiro (Subulo gouazoubira) e o cateto (Dicotyles tajacu). Além disso, nos Parques Nacionais Aparados da Serra e Serra Geral, foram registrados recentemente indivíduos de lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).
Por outro lado, também há a presença de espécies exóticas invasoras, como o javali (Sus scrofa), essa espécie representa uma ameaça para a fauna nativa, competindo por recursos e causando impactos no equilíbrio ecológico da região.

Mamíferos da Serra do Faxinal: Diversidade e Conservação no Sul da Mata Atlântica
Puma ou leão-baio (Puma concolor) - Foto: Monitoramento de Mamíferos da Rodovia SC290

De que forma os moradores locais podem contribuir para a conservação da fauna?
A preservação da fauna em geral depende muito da conscientização e do envolvimento da comunidade local. Moradores que conhecem a biodiversidade ao seu redor têm um papel fundamental na conservação. Conhecer as espécies, entender seu papel no ecossistema e, em caso de dúvidas, buscar informações com profissionais e projetos especializados, como o trabalho realizado ao longo da rodovia SC290, são atitudes simples que fazem toda a diferença. Além disso, apoiar iniciativas como o Projeto de Conservação Carnívoros dos Cânions, seja por meio de apoio financeiro ou ajudando a divulgar as ações e a importância da preservação, tem um impacto significativo. A colaboração da comunidade local não só fortalece a conservação, mas também promove um ambiente mais seguro e sustentável para a fauna da região.

Existe alguma curiosidade sobre a os mamíferos da Serra do Faxinal que poucas pessoas conhecem?
Uma curiosidade sobre os mamíferos da Serra do Faxinal é que muitas pessoas, tanto moradores quanto visitantes, não sabem da grande diversidade da região. É surpreendente descobrir que animais como gatos-do-mato, graxains, cutias, jaguatiricas, lontras, veados, bugios e outros, coexistem nos mesmos espaços frequentados por turistas, como pousadas e propriedades.
Outro tema que também é visto com surpresa é sobre a rodovia SC290, que está sendo planejada para ser segura tanto para os usuários quanto para a fauna local. Já existem passagens de fauna inferiores, embaixo da rodovia, utilizadas por diversos animais, e estão sendo construídas outras, incluindo passagens superiores, para permitir que animais arborícolas, como os bugios, se desloquem com segurança.

Mamíferos da Serra do Faxinal: Diversidade e Conservação no Sul da Mata Atlântica
Gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) - Foto: Monitoramento de Mamíferos da Rodovia SC290

Então, de forma geral, a curiosidade sobre os mamíferos da Serra do Faxinal, é a sua própria existência, a sua riqueza e abundância, expressa em dados obtidos através do monitoramento de mamíferos. É sobre a sua vida acontecendo naturalmente bem debaixo dos nossos “pés” e “pneus”, nas passagens de fauna da rodovia SC290, bem como usando a rodovia para se deslocar no final da tarde e durante a noite. A curiosidade e surpresa é descobrir que esses animais e muitos outros sempre estiveram ali, vivendo suas vidas e exercendo suas funções ecológicas, a diferença agora é que, temos o conhecimento, e o privilégio em saber, sobre a sua existência e como eles utilizam o ambiente. 

Integrantes do Projeto de Conservação Carnívoros dos Cânions:
Emanuelle Pasa – Bióloga Mastozoóloga – Coordenadora do Projeto de Conservação Carnívoros do Cânions e Responsável Técnica pelo Monitoramento de Mamíferos no âmbito do licenciamento das obras de pavimentação da Rodovia SC290 
CRBio 81900-03
(54) 9 9181.1160
E-mail: [email protected]
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0243356211513093
 
Cassiana Alves de Aguiar – Bióloga Ornitóloga - Projeto de Conservação Carnívoros do Cânions 
CRBio 118855 – 03
Bacharel em Ciências Biológicas (2017) – Universidade Federal do Pampa
Mestre em Ciências Biológicas (2019) – Universidade Federal do Pampa
Doutora em Ecologia e Evolução da Biodiversidade (2025) – PUCRS
E-mail: [email protected]
Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/2413235665741119

Arthur Venancio de Santana – Projeto de Conservação Carnívoros do Cânions
Bacharel em Ciências Biológicas (2019) – Universidade Federal do Pampa
Mestre em Ecologia e Evolução da Biodiversidade (2021) – PUCRS
Doutorando no PPG Ecologia e Evolução da Biodiversidade – PUCRS
E-mail: [email protected]
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3673174947529724

 

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